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Receção ao Caloiro'18: Entrevista Bezegol - " Guimarães é sempre mais especial"

Receção ao Caloiro'18: Entrevista Bezegol - " Guimarães é sempre mais especial"

O concerto desta noite superou as tuas expectativas?
Superou, claro. Se bem que era um bocado hipócrita dizer que não estou a contar com isto quando tocamos aqui no Norte. Como costumo dizer, o Norte é a nossa casa. Desde que comecei a tocar sempre fui bem recebido em Guimarães e no Minho em geral. Só tenho a dizer bem e mais uma vez muito obrigada. Já entramos um bocado tarde em palco e por estarem ali para nós eu só tenho de mostrar o meu apreço por isso e agradecer.

O Bezegol esteve no Enterro da Gata em 2017 e agora faz parte do cartaz da Receção ao Caloiro 2018. Qual a sensação ao ver que há um interesse em tê-lo connosco nestes eventos académicos?
Fico muito contente. Eu fico muito contente com qualquer promotor ou grupo que tenha interesse em que a gente vá lá tocar. Neste caso, ter universitários a escolherem-nos para vir cá tocar é sempre muito bom. Ninguém nos faz muita publicidade. Para além do instagram e do Facebook, a melhor publicidade que nós temos é o público, as pessoas fazerem a nossa música circular, sacarem os ficheiros da net e ouvir e passarem a outras. Isso é que faz com que a gente tenha público e, consequentemente, que os promotores nos comprem. O fator ‘público’ é o mais importante para nós. Mesmo assim nós não damos muitos concertos. Não fomos um projeto muito comercial. Por isso, todos os concertos que damos estimamos muito. O Norte é sempre mais especial. Guimarães é sempre mais especial. Tenho muitos amigos aqui, em Braga. Cresci aqui e é sempre muito bom vir cá tocar. Fico muito agradecido por nos convidarem. Já o ano passado foi fantástico em Braga e agora foi fantástico aqui. Nunca tínhamos vindo ao Pavilhão Multiusos. Estou muito agradecido.

Os alunos que entraram agora na Universidade do Minho nasceram em 2000 e, como se viu durante o concerto, sabem as letras de todas as músicas do Bezegol. Como é que se sente ao saber que continua a influenciar as novas gerações?
É muito bom. Ainda há pouco tempo estava falar com o Rui Veloso e disse-lhe: “Pronto, quando acabar, acabou, mas já levo daqui umas boas recordações”. E ele disse: “Não penses nisso, ainda vais andar a tocar. Ainda vais ser velhinho e os putos ainda te vão querer ouvir”. Eu olhei para ele e bateu-me mesmo do género: “Epá, se fosse verdade era mesmo bom”. Nós nunca sabemos quando nos vão deixar de escutar. O meu filho nasceu em 1998 e vir tocar para pessoas da idade dele, para a geração dele claro que é muito bom. Quer dizer que conseguimos passar alguma coisa. A prova disso é termos o pessoal a cantar connosco. É mesmo muito bom.

Que mensagem quer deixar para os novos alunos?
É um bocado como eu falo nas letras. Mantenham-se mais atentos. O sistema está feito para se alimentar a si próprio e não para tratar do vosso futuro. É mesmo importante que vocês tenham mesmo atenção de como funciona esta geringonça, o governo que esteve antes… Não se esqueçam que ainda estamos em tribunal com ex primeiros-ministros que pertencem ao partido que agora está no Governo. É claro que eles vão sempre sorrir para nós, dar conferencias de imprensa, dar abraços ao povo porque acham que isso vai calando o pessoal. Não se esqueçam que somos um país que faz fronteira com Espanha e o ordenado mínimo deles é muito superior ao nosso e nós andamos aqui a bater para tentar ter 600€ quando sabemos que isso agora para vocês que têm de ir estudar para outras cidades não chega para pagar o quarto e as refeições. Às vezes é isso que o teu pai ou a tua mãe ganha. E têm de fazer um esforço enorme só para poderes estar na faculdade e passar esses anos todos e entrares no sistema de trabalho que te vai colocar a fazer estágios em cima de estágios, não vais receber nada, vais continuar a viver em casa dos teus pais. Tudo isso continua a acontecer desde o 25 de abril. Continuamos a papar muitos ‘chaços’, como a gente costuma dizer. A única coisa que eu digo a esta geração nova é só mesmo isso. Eu não sou político, não sigo nenhum partido, não sou de esquerda nem de direita. Tenho criticas a fazer desde o Bloco de Esquerda ao PSD, não poupo nenhum porque acho que eles continuam a trabalhar para manter os lugares deles lá e estão sempre a esquecerem-se de que eles estão lá para nos representar. O que eles conseguiram é que o povo já não entende porque é que se estão a revoltar e a fazer greve. Ninguém percebe a greve dos enfermeiros e dos professores a não ser eles mesmos. Isso mostra que nós nos desprendemos bastante socialmente uns dos outros. A vida foi-se tornando tão complicada para o português que ele cada vez mais tem de se preocupar com a vida dele. Deixou de haver espaço para se poder fazer alguma coisa para além disso porque o pouco espaço que têm é para tentar ganhar mais algum para cobrir as despesas que vão tendo com a vida. Vocês estão a estudar, vão lidar com um sistema de ensino que já por si é deficiente porque tem muitas falhas e, por consequência, com um sistema de trabalho que também é disfuncional. O que eu queria passar é mesmo isso: mantenham-se atentos, façam baralho. Temos de perguntar o que é que eles estão a fazer no Parlamento todos os dias, o que é que estão a aprovar ou não. Não temos de estar a levar com notícias sobre o golo do Ronaldo ou sobre coisas similares que nos estão sempre a atirar para a frente que é para o people esquecer-se de perguntar, sabes? Vocês que estão a estudar, estudem bem isso, percebam bem isso, façam barulho porque senão só vai piorar. É preciso perceber porque é que as coisas estão a acontecer. A Geração 2000 tem de fazer mais força, cultivar-se o suficiente para saber entrar nessa engrenagem e conseguir desmontá-la.